O ‘ideal’ corrompido.

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Você sabe, é complicado amadurecer. É muito difícil ser profissional o tempo todo. É impossível respirar aliviado, dar-se por satisfeito, tendo que se enquadrar a um estilo de vida ‘ideal’, que empurra a sua felicidade para longe.

Você entende do que eu tô falando? Em diversos ambientes e em variadas situações, a vida impõe dois caminhos diferentes a nós: um deles é perfeitamente propício, um modelo ajustado, que te oferece benefícios e te destaca dos demais, pois é algo ‘ideal’. É o melhor, nada além disso. O outro, te proporciona satisfação. Longe de ser aquilo que as pessoas enxergam como excelente, mas, definitivamente, é o seu essencial. É o seu fundamental. É o seu imprescindível. É tudo o que você precisa.

Por exemplo: você vai estudar fora, mas sofre com a falta dos seus familiares. Você muda de emprego, visando ganhar mais, mas perde o dia a dia ao lado dos laços criados e a autonomia que você tinha na empresa anterior. Você insiste em namorar alguém, levando em consideração o que essa pessoa pode lhe proporcionar, mas deixa de lado a sua liberdade, as oportunidades de viver novas experiências. Você trabalha com um grupo acadêmico excelente, que se destaca constantemente, mas não é prazeroso se você é ofuscado e não possui intimidade com as partes envolvidas.

É confuso. Você sabe que um caminho irá lhe oferecer tudo da melhor forma. Neste, você terá que se preocupar menos, porque as coisas estão ajustadas. Seu futuro está sendo construído, ou seja, a distância das pessoas que você ama precisa ser ignorada. Seu orçamento mensal deu uma alavancada, então, não importa se os “profissionais” ao seu redor são machistas, preconceituosos e te tratam como alguém desqualificado. A vida a dois lhe proporciona divisão de tarefas e despesas. Portanto, mude seus planos. Esqueça as viagens e os bons momentos com os amigos. Viva e respire somente o seu namoro. E seu ’10’ está garantido nos seminários da faculdade, apenas lide com um grupo que não te deixa à vontade para opinar. Afinal, se o resultado final for positivo e viver em plena comodidade é o que vale a pena, tudo está perfeitamente adequado.

Sim, perfeitamente, até perceber a frustração em que você se encontra. Sua essência, sua satisfação, se perderam. Aí, você se questiona como abrir mão deste caminho. Reflete sobre tudo o que você pode perder. Busca soluções que amenizem o impacto das mudanças. E, por fim, você se dá conta de que está perdido.

Seguir o outro caminho lhe deixaria muito mais feliz, mas também ocasionaria um transtorno cruel e inevitável. Então, você segue em frente, enlouquecendo. Desesperado para desviar a rota… Mas você é incapaz de fazer isso.

Você sabe, o ‘ideal’ que você vive não é suficiente e, da mesma forma, você não é forte o bastante para abandoná-lo.

Tem amor estocado aí? Distribua!

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O assunto de hoje é referente ao último Dia dos Namorados – sei que você deve estar me criticando com “querido, o ‘timing’ já passou, agora o papo é doces de festa junina e Copa do Mundo”, mas não se preocupe. Não vamos discutir a respeito dessa data comercial ou falar de romantismo. Vamos falar de empatia.

Mais triste do que passar o Dia dos Namorados solteiro é passa-lo desentendido com a pessoa que você ama. Para nós, que importunamos a vida dos nossos colegas de trabalho por ainda não terem encontrado sua “alma gêmea”, é ainda mais complicado. Portanto, sim. O dia 12 de junho (no Brasil) pode significar muito para algumas pessoas, e comigo não é diferente. Um namoro vai além de status, alianças, datas comemorativas e momentos de pura cumplicidade e alegria. Ele também envolve sentimentos fortes que, com muita facilidade, te inspiram ou te desmontam. Quando essa data se aproxima, você planeja surpresas, pesquisa presentes, esquematiza sair mais cedo do serviço e até mesmo faltar à faculdade para celebrar esse laço que te faz tão bem, ao lado do seu amante. Mas seu mundo parece desmoronar quando você percebe que tudo isso foi em vão, por conta de uma, duas ou várias mancadas da outra parte.

Enfim, é Dia dos Namorados – foi, tanto faz –. Você acorda e vê que seu ‘companheiro’ já saiu para trabalhar, sem se despedir. Você passa a manhã atualizando seu status para chamar atenção, mas não recebe sequer uma mensagem durante o dia todo. Você, já triste com tudo o que ocasionou isso, se amargura. Coloca os fones de ouvido, encara a tela do computador e trabalha sem trocar muitas palavras com o restante da sua equipe. É, aí, que alguém resolve salvar o seu dia. Sabe com o quê? Com preocupação. Com empatia.

Você, de repente, é interrompido. Obriga-se a tirar os fones e olhar para quem está te cutucando com um sorriso estampado no rosto e dizendo “Trouxe algo para você ficar feliz!”. A pessoa te entrega um saco de papel simples – a mesma pessoa que tem evitado gastar no horário de almoço, pois tem economizado para uma viagem –, com alguns dizeres e alguns doces dentro. Você recebe e agradece. Então, você sorri e esquece, por um momento, sua decepção. A pessoa senta ao seu lado, como de costume, e lhe dá espaço para desabafar e liberar toda mágoa presa no seu coração. E, espontaneamente, você se sente bem.

Não importa se o que estava dentro daquele saco de papel era do meu agrado ou se custou barato. Ele foi entregue com uma intenção admirável. Tirou de dentro de mim toda melancolia que me preenchia e me proporcionou ânimo para finalizar o dia. E, de tão simples, me fez questionar: Por quem, ou melhor, por quantos, eu tenho me colocado no lugar? Há quanto tempo não ofereço um “saquinho do amor” a alguém? Quão egoísta sou, ao ouvir os problemas alheios? E as respostas, como esperado, foram completamente insatisfatórias, se é que me entende.

Portanto, a reflexão que eu gostaria de compartilhar é em relação a como o ser humano se envolve com os seus próprios problemas e deixa de ser empático com o colega que chega para trabalhar mal-humorado; o amigo que compartilha de seus descontentamentos no Facebook; o familiar que, desesperadamente, tem passado por alguma dificuldade. E isso não se enquadra somente em datas específicas, as pessoas lidam e sofrem com situações difíceis todos os dias. Infelizmente, muitas delas não recebem um saquinho do amor.

Empatia. Precisamos de uma boa dose dela logo no café da manhã. Nunca se esqueça disso.

[RESENHA CRÍTICA] Ainda em dúvida se assiste ao filme “Um Lugar Silencioso”?

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Você provavelmente já bateu o dedo mindinho do pé contra algum móvel da sua casa e se jogou no chão, berrando de dor, gritando palavrões e, possivelmente, chorando horrores. Diante disso, lamento lhe informar, mas você não duraria sequer um dia no futuro próximo de Um Lugar Silencioso.

Dirigido por John Krasinski, A Quiet Place (no original) relata o dia a dia de uma família composta por um pai, uma mãe – que muito em breve engravida – e dois filhos, que lutam pela sobrevivência, protegendo um ao outro em um cenário pós-apocalíptico, onde quase toda população foi dizimada. Tudo o que se sabe, é que a Terra foi invadida por extraterrestres cegos e com olfato pouco aguçado, porém, com habilidades auditivas extremamente elevadas, que se incomodam e atacam qualquer fonte que ouse emitir sons. Neste contexto, é expresso com muito louvor, a preocupação fraternal entre as partes sobreviventes, evidenciando o instinto de proteção, culpa e sacrifício.

Mas calma aí, o que leva essa família a resistir por tanto tempo diante dessa situação? Bom, sendo lógico, o fato de a filha do casal protagonista (a atriz Millicent Simmonds, de Sem Fôlego) possuir deficiência auditiva, contribuiu com a facilidade de comunicação muda entre as personagens. A habitualidade em interagir com sinais e poucos barulhos pode ter sido a vantagem que essa família teve para conseguir sobreviver por mais dias. Além disso, cada minucioso detalhe (sim, temos a necessidade dessa redundância) é nitidamente bem pensado pelos pais, que substituem objetos barulhentos por outros mais silenciosos, como um prato por uma folha, uma porta por um colchão e até mesmo lampiões, em vez de lâmpadas convencionais, para evitar o som dos interruptores. Questões muito bem executadas pela Direção de Arte, que teve todo cuidado ao destacar que objetos usuais podem representar uma ameaça.

Ter uma personagem deficiente auditiva, acentua ainda mais a tensão, por conta do silêncio que preenche suas cenas. Aliás, um dos pontos mais interessantes do filme, é quando as personagens percebem a presença das criaturas e todos, com exceção da filha, reagem com feições apavoradas. Como a garota não pode ouvir o que se aproxima, suas cenas tendem a ser as que mais geram sustos, já que ela não demonstra medo previamente, e porque o uso da trilha sonora está impecavelmente bem aplicado. Mas olha, vou avisando: é susto atrás de susto. Então, prepare-se!

“João, o filme possui algum diálogo?” Oh God, sim! E acredite, são os momentos de maior alívio que você possa imaginar (e, ao mesmo tempo, seu coração já dispara, acreditando que as criaturas possam ouvir). Em alguns momentos, perto de um rio barulhento, por exemplo, as personagens podem se expressar com palavras, já que o som do rio encobre suas falas. Mas não espere que alguém comece a cantar Singing In The Rain, chutando água para todo lado, porque isso não acontece (mas poderia, só para tirar um pouco a tensão, Deus me free).

Em relação a atuação do elenco (muito bem selecionado, por sinal), vocês podem aplaudir de pé. Principalmente, o filho (Noah Jupe, de Extraordinário), que transmite o medo dele para você o tempo todo, e a mãe (Emily Blunt), que executou com maestria, todas as cenas mais tensas e desesperadoras do filme. Inclusive, ter que segurar o seu bebê, que está prestes a nascer bem na frente de uma criatura, controlando seus sussurros e sua respiração ofegante.

O filme é realmente muito bom. Tensão do início ao fim. Você fica com o olhar preso à tela, e o que seria 1h30 de filme, parece passar em 20 minutos, de tão apreensivo e envolvido que você se encontra ao assistir. Dou uma ressalva: o final sugere uma solução e é uma cena espetacular. Porém, não espere respostas para “de onde eles vieram?”, “por que invadiram a Terra?”, “Por que outras criaturas não aparecem quando uma mesma da espécie quebra alguma coisa ou faz alguns rangidos no chão”? – isso me incomodou muito – entre outras questões, porque você não obterá. Portanto, a questão é simples: você teria que engolir o choro e se engasgar com qualquer mísero ruído que tenha pensado em soltar em momentos de dor ou exaustão. Este é o tipo de aflição decorrente durante toda essa trama, que deixa qualquer um totalmente angustiado. Então, se você gosta de um promissor filme de terror, que te deixa vidrado e impaciente, esse é um filme excelente para você!